Livro: “Memórias de Marrocos” e ” Souvenirs du Maroc”

 

Memórias de Marrocos (Portuguese Edition)

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Há momentos na vida em que se sente a necessidade de escrever ou de falar da juventude. Não se trata, propriamente, de escrever um livro. Escrever um livro, dizia um autor de quem esqueci o nome, é a “morte de uma árvore”. Escrever para os outros é um trabalho penoso, onde a atenção deve estar sempre alerta a fim de escolher tudo o que toca a nossa sensibilidade. Escrever para si é como a grande respiração, é testemunhar,  olharmo-nos tal como somos, rir de nós mesmos, deixarmo-nos levar pelas ternas delicadezas. Mas o traço da nossa escrita vira-se muitas vezes contra nós próprios, as páginas são frequentemente reveladoras. É bom, entretanto, uma vez chegado à minha idade, permitir-me esses abandonos e segredos, o que, púdico como sou, não faz parte dos meus hábitos.
Começarei por uma das páginas da minha memória este itinerário vivido na juventude: a via estreita que escolhi contra toda a expectativa familiar. Bifurcação que causou, seguramente, um alvoroço no meu próprio casamento. Reconheço hoje que consagrei uma grande parte da minha existência a dar testemunho da realidade da sabedoria, “Via”, “Do”, muito antes de eu próprio conhecer este despertar, e tenho ainda muito a caminhar… Após a última operação ao meu cancro, tive a noção clara de que pode sobrevir uma abertura global e isto a qualquer momento e relativamente a não importa quem. Seguir uma Via sozinho é um risco elevado. O ser humano nem sempre está preparado para esta luz, porque ela é mais forte do que a escuridão. O ego pode arrastar-nos à loucura, se não tiver sido trabalhado.

 

 

 

Souvenirs du Maroc (French Edition)

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Il y a des moments dans la vie où l’on éprouve le besoin d’écrire ou de parler de sa jeunesse. Il n’est pas question, ici, d’écrire un livre. Écrire un livre, disait un écrivain dont j’ai oublié le nom, c’est la “mort d’un arbre”. Écrire pour les autres, c’est un rude travail, où l’attention est toujours en éveil pour choisir tout ce qui touche notre sensibilité. Écrire pour soi, c’est la grande respiration, c’est déposer, c’est nous regarder tels que nous sommes, c’est rire de nous-mêmes, c’est se laisser aller aux tendres délicatesses. Mais le trait de notre écriture se retourne très souvent contre nous-mêmes, les pages sont souvent révélatrices. Il est bon cependant, arrivé à mon âge, de se laisser aller à des abandons, à des secrets, ce qui, pudique comme je suis, n’entre pas dans mes habitudes.
J’ouvrirai donc par l’une des pages de ma mémoire, cet itinéraire vécu dans ma jeunesse sur la voie étroite que j’ai choisie contre toute attente familiale. Bifurcation qui causa très certainement un bouleversement dans mon propre mariage. Je reconnais aujourd’hui que j’ai consacré une grande part de mon existence à témoigner de la réalité de la sagesse, “Voie”, “Do”, bien avant de connaître moi-même cet éveil, et j’ai encore beaucoup à faire… Après la dernière opération de mon cancer, j’ai réalisé que peut survenir une ouverture globale, et ceci à tout moment, et pour n’importe qui. Suivre une voie seul, c’est un haut risque, l’être humain n’est pas toujours équipé pour cette lumière, car elle est plus forte que l’obscurité. L’ego peut nous entraîner dans la folie, s’il n’a pas été travaillé.

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