A voz do corpo – Publicação na revista Continente Multicultural Março 2004

Edição #39 – Março de 2004

ARTES CÊNICAS

A voz do corpo

Georges Stobbaerts, belga radicado em Portugal, promove um diálogo sistemático entre artes marciais e teatro, defendendo que a arte do movimento não se limita à procura da forma, mas é também linguagem

Por Everardo Norões

Em 1970, no Japão, enfrentaram-se dois mestres do kendo, o esgrima japonês. De um lado, Yukio Mishima, um dos mais célebres escritores daquele país, que perseguia o retorno à tradição autoritária de um Japão feudal. Do outro, Georges Stobbaerts, um belga nascido no Marrocos, fascinado pela cultura oriental.
Foi uma das últimas competições de Mishima, autor do livro “Confissão de uma Máscara”. Após a tentativa fracassada de golpe de Estado, cercado pelo exército japonês, Mishima se recusou a entregar-se. Morita, seu amigo e ajudante, acompanhou-o na morte: ambos executaram o sepuku, o suicídio ritual japonês.
Após a competição, no avião que o trazia de volta à Europa, Georges Stobbaerts viu nos jornais a fotografia das cabeças de Mishima e Morita expostas sobre a mesa de um general. Embora Georges Stobbaerts observe o movimento na perspectiva da arte do instante – que tem no corpo humano o seu mais perfeito instrumento de realização – a lembrança mais forte foi a dos detalhes do elegante keikogi (quimono) usado por Mishima durante a luta. Stobbaerts, que já naquela época percebia os gestos como algo susceptível de despertar a beleza e de buscar o entendimento entre diferentes culturas, viria a tornar-se um dos grandes mestres de yoga e de aikido.
Georges Stobbaerts tomou Portugal como seu país de adoção. Cônscio de que a arte do movimento não se limita à procura da forma, mas é também linguagem cuja dimensão ultrapassa o círculo das artes marciais, estabeleceu um diálogo, que prossegue até hoje, com o mundo do teatro, através de pessoas, como o dramaturgo Jorge Salazar Sampaio, Felipe La Féria, Carlos Avilez, Jorge Listopad, João Lourenço, Adolfo Gutkin, Mário Barradas e Zita Duarte. Seus conhecimentos sobre os fundamentos do teatro oriental, sobretudo o Nô e o Kabuki, somados à sua vasta experiência nas artes marciais, converteram-se em contribuições inovadoras para o teatro português.
Georges Stobbaerts dedica-se, há mais de 30 anos, ao ensino de aikido e de yoga. Preocupado com a evolução das artes marciais e da sociedade em direção à competição e à violência, criou uma nova arte do movimento, o Tenchi Tessen. É autor de vários livros, entre os quais Aikido, Harmonia do Corpo e do Espírito, A Arte do Movimento e a Meditação, Hatha Yoga, além de O Corpo e a Expressão Teatral.

Georges Stobbaerts vem regularmente a Pernambuco ministrar seminários de aikido e seus livros estão disponíveis no Centro Georges Stobbaerts (Rua Padre Anchieta, 571, Torre, Recife, Tel: 081.34454497), dirigido pelo professor Paulo Roberto Nunes.

(Leia mais na edição 39 da Revista Continente Multicultural. Já nas bancas.)

 

 

 

 

 

 

 

capa da revista Continente Multicultural #39

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